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O MILAGRE

21 gen 2008

      Acordou cedo, pegou o revolver que estava escondido dentro do sapato debaixo da cama. Vestiu-se: camisa regata, bermuda colorida e chinelas havaianas azuis. Roberto era um jovem que gostava de aventuras, sempre saia com os amigos para farrear e se divertir sem se preocupar com nada. Naquele dia estavam com ele os seus três amigos inseparáveis, eram eles: Fernando Generoso, um cara estranho, que ria de dez em dez minutos, mas do que ele ria nem ele mesmo sabia explicar, Zacarias, divertido, rapaz simples, baixinho e simpático como aquele do programa “os trapalhões” do qual herdou o apelido e, por ultimo Celso, sujeito de mil e uma faces que ia do correto ao incorreto em questões de segundos se as circunstancias assim o interessassem.
      Roberto tinha dezessete anos e era um ano mais novo que os demais. Fumou seu primeiro baseado aos doze, e aos dezesseis tomava chá de cogumelo enquanto ouvia musica nos pontos mais altos da cidade, gostava tanto de curtir os efeitos alucinógenos dos cogumelos que muitas vezes comia-os aos pedaços mergulhando-os em leite moça para tirar o gosto de mofo do fungo; ele era uma espécie de cobaia humana da loucura, tomava de tudo, experimentava de tudo, mas, nunca injetou – em meu sangue não deixo injetar nem vitaminas – ele sempre dizia com um orgulho mórbido. Aquele quarteto era um barril de pólvora, se reuniam quase todos os finais de semana e feriado em busca de diversão, drogas e aventuras.
       Era dia doze de outubro, dia de Nossa Senhora de Aparecida, a padroeira do Brasil. Escolheram o campo de aviação da cidade como paisagem para mais uma das suas festinhas movidas a álcool e muitas drogas. O lugar ficava quase sempre vazio, já que avião ali era ate difícil de dizer de quanto em quanto tempo aterrissava. Já com uma quantidade considerável de maconha e vodka na cabeça, Roberto sacou a arma e sem que os outros percebessem atirou em direção a uma arvore. Todos levantaram assustados, e ele riu como uma criança inocente e ao mesmo tempo covarde. Passado o susto a arma foi de mãos em mãos sendo manipulada; Ora um ora outro um tiro em alguma direção disparava.
      Algumas horas depois Roberto foi surpreendendo com a arma apontada para sua cabeça, era Zacarias, que com um olhar de bandido e palhaço lhe disse: _ vou te matar! Roberto sem se desesperar pediu para Zacarias que parasse com a brincadeira – ta duvidando eu vou te matar mesmo – disse Zacarias com a arma agora a alguns centímetros apenas da cabeça de Roberto que estava sentado na grama. Com um reflexo e uma agilidade que ate hoje nenhum daqueles jovens soube explicar, Roberto bateu com a mão direita no tambor do revolve no exato momento em que Zacarias puxava o gatilho. Com a mão cheia de pólvora Roberto procurava desesperado em seu corpo onde teria sido atingido pelo tiro. Enquanto isso, Zacarias caia desmaiado na grama como se o tiro tivesse saído pela culatra.
      Fernando e Celso olhavam espantados e ao mesmo tempo embasbacados como dois viajantes do tempo, com um olhar no que estava acontecendo e outro em um outro canto qualquer do universo... Roberto encontrou o buraco da bala no chão a uns dez centímetros de sua coxa direita e, só então suspirou aliviado, levantou-se e olhou para o céu enquanto passava desesperadamente as mãos pelos cabelos. Ele nunca tinha visto a morte assim tão de perto. Nem mesmo em seus delírios psicodélicos movidos a vinho tinto e cogumelos a morte havia se mostrado assim tão de perto.
      Zacarias aos poucos foi se recompondo e quando por fim visualizou a imagem de Roberto vivo, sorriu aliviado e ao mesmo tempo caiu em desespero... – eu ia te matar Roberto - Zacarias dizia entre soluços e lagrimas. – para mim a arma estava descarregada, eu mesmo a descarreguei há pouco tempo atrás, queria só te dar um susto e quase te mato sem a intenção de matar. Então uma nuvem pálida tomou conta daquele lugar, e o que era farra virou drama. A loucura passou subitamente como se tivessem tomado um antídoto. E então um a um foram entrando no carro e fizeram o caminho de volta sem trocarem uma única palavra ate suas casas.
      Alguns anos depois Roberto e Zacarias se reencontraram na cidade de São Paulo, não se viam já fazia oito anos. Zacarias abraçou Roberto como abraça o filho um pai, e mesmo tantos anos depois tremia e com a voz embargada a única coisa que conseguiu falar foi: - eu ia te matar Roberto eu não sabia que aquela arma estava carregada...

CONTO

06 gen 2008

                                O Cara do Bloco B

        Andava sozinho pelas ruas de Belo horizonte. As ruas estavam totalmente desertas. Parecia caminhar por entre um enorme cemitério de edifícios, era um silencio incomum a uma cidade grande. No entanto, passava das dez horas da noite, e era de se esperar que com o aumento desenfreado da violência e da criminalidade em nossa cidade, as pessoas cada vez mais evitassem saírem à noite. Contudo, todas as justificativas iam à medida que eu caminhava, desfazendo-se aos poucos. – Estou subindo a Rua da Bahia, desde a Avenida Afonso Pena e já cruzei varias ruas sem que ao menos um ser humano passasse por mim, nada alem das avenidas desabitadas cruzou o meu caminho ate agora, nem sequer um automóvel passou por mim. Onde será que se meteu aquela gente toda? Talvez o trânsito aqui no centro da cidade tivesse por algum motivo extremo sido interrompido, mas, será que eu fui o único que não se informou a respeito disso?
        Caminhei mais um pouco e chegando a um barzinho, na esquina da Bahia com São Paulo, maior ainda seria o meu espanto! Havia uma musica tocando, o som vinha de duas caixas acústicas pregadas em cada uma das paredes laterais de um velho bar, era uma musica clássica, Vivaldi, concerto opôs 3/8. - Apesar de não gostar muito de musicas clássicas, essa eu já tinha ouvido varias vezes... É que meu irmão na época em que morávamos no interior de minas, simplesmente, adorava musica clássica, e Vivaldi era um dos seus preferidos, todavia, claro que Mozart, Chopin, Bach e muitos outros também faziam parte da sua coleção de boas musicas, assim como ele mesmo orgulhosamente gostava de chamá-las. Mas deixemos meu irmão de lado que dos que já se foram com certeza essa não é a melhor ora para se falar. Pude notar também que a porta do freezer estava aberta e, que do alto de uma das prateleiras, um líquido vermelho e espesso escorria de uma garrafa que estava tombada e, vinha descendo de prateleira em prateleira ate dá no chão, exatamente, em frente a uma porta que estava trancada e que de certo daria acesso ao interior do bar. Havia também uma maquina registradora dessas do tipo PDV, e como estava aberta pude ver que certa quantia em dinheiro ainda estava no caixa. E isso me chamou a atenção. Porque alguém largaria um bar sozinho? E ainda iria embora tão rápido, tão desesperadamente que se quer se lembrou de recolher o dinheiro do caixa? Essa pergunta e tantas outras passaram pela minha cabeça como se varias pessoas ao mesmo tempo as fizessem. E pela primeira vez naquela noite eu tive medo.
        Sai do bar e segui em direção a praça da liberdade. Fui logo avistando todas aquelas belíssimas palmeiras imperiais, o chafariz e o coreto, direcionei meus olhos para o palácio do governo onde dava como certa a presença de uma sentinela; mas novamente aquele vazio, não havia ninguém, nem ali, nem por onde eu havia passado e muito menos em qualquer canto daquela praça. Uma estranha sensação de que algo muito ruim estava acontecendo, percorreu o meu corpo e gelou a minha alma. Sentado, num banco da praça, embasbacado, olhando o vazio, o silencio que se estendia pelos quatro cantos daquela fantasmagórica praça, eu, me senti totalmente perdido e, por um segundo pensei em voltar ate aquele barzinho só pra ouvir novamente aquela musica clássica... No entanto, dentro de mim, na parte obscura e confusa do nosso cérebro em que a mente age por si mesma, totalmente alheia a nossa vontade, uma voz me dizia:- se acalma Miguel! Não é agindo assim que você vai conseguir entender o que esta acontecendo, procure se lembra de como tudo começou? Por um instante, pensei ter ouvido um assovio, um apito ou um pássaro talvez, mas há essa hora, estava mais para morcegos. Decidi não mais ficar ali, aquele silencio e todos os pensamentos, estavam me deixando ainda mais confuso. Voltei para o meu apartamento, lá pelo menos o vazio e o silencio eram-me familiar.
        De volta ao meu apartamento, liguei a televisão, chuviscos apenas, em todas as emissoras apenas chuviscos, tentei então sintonizar uma FM e nada, nada alem de ruídos. Peguei o telefone e estava mudo, então fui ate a janela e gritei! Gritei bem alto, socorro! E os meus gritos ecoaram e se perderam no vazio negro e frio que separava o bloco A do bloco B, sem que ninguém me ouvisse. Nem o sacana do sindico meu vizinho de frente ouviu-me. Por Deus, eu juro como eu desejei naquele momento que aquele velho idiota tivesse aparecido, nem que fosse só pra me mandar calar a boca... Mas o maldito não estava lá, nem ele e nem ninguém, os prédios estavam vazios, nenhum porteiro, nenhum barulho de elevador, nada! Nem uma viva alma pra me dizer um oi que fosse. Coloquei um CD da Janis Joplin pra tocar, era preciso quebrar o silencio, pelo menos o silencio exterior, já que dentro de mim a discussão ia longe. Mas, onde, onde se meteu aquela gente? Cadê o cara do 705, ele nunca se atrasa, trabalha todos os domingos de segurança no hospital das clinicas, e sem se atrasar sequer um minuto as onze horas em ponto, fazia o prédio inteiro ouvir seu pigarro nojento. Nem a Carol, aquela putinha do 905; ela sempre chegava da balada completamente bêbada e há essa hora já estaria estirada na cama, suja, nua, e com as janelas e as pernas abertas, mostrando pra quem quisesse ver aquela coisa podre e fácil que ela trazia entre as pernas. Maldição! Só pode ser coisa do alem, vai ver é isso, eu morri, estou morto! E aqui no mundo dos mortos, cada um tem sua cidade. - É... Mas, uma cidade para cada um, que exagero! Prefiro acreditar que estou sonhando, isso...! Isso mesmo... Estou sonhando e nada disso é real, não demoro eu acordo e tudo voltará ao normal.
        Lá fora, todas as luzes estavam acesas, a cidade inteira iluminada. Da minha janela dava pra ver o viaduto Santa Teresa todo iluminado, entretanto, nenhum carro o atravessa. Ao fundo, no limite onde os meus olhos assombrados e umedecidos alçavam, uma neblina densa e branca se formava. Voltei para a sala e então pensei na possibilidade de estar só não somente na cidade, como também no mundo. Fiquei perplexo, meus olhos encheram-se de lagrimas e a minha voz desceu pela garganta como um bêbado desce uma escada. Eu não encontrava um único motivo, algo que me fizesse entender essa loucura na qual agora eu habitava. Deitei no chão da sala, estiquei meu corpo tremulo e olhando fixamente para o teto paralisei! E meu mundo, como em um daqueles globos enormes que agente vê nessas pistas de dança, começou a girar e a refletir fragmentos da minha vida por toda parte. Quando foi que eu me perdi? De certo por algum motivo sobrenatural vim parar aqui nesse mundo, que não sei dizer o que é. Mas sei que o vazio em que me encontro, veio num daqueles bondes que de tempos em tempos partem de nossas almas com destino incerto. Cavamos um abismo por dia vivendo essa vida louca, esse frenesi das cidades grandes; e eu me encontro agora na minha mais egoísta existência... Levantei e voltei à janela, lá fora tudo era só silencio, e nada se movia alem das folhas impulsionadas pelo vento. Nem ao menos um cão - mesmo não gostando de cães eu queria ouvir pelo menos um inexpressivo latido de um cachorro vira-latas. Já não sabia o que fazer; andei pela casa como um lobo enjaulado. Abri a geladeira, bebi tudo que encontrei pela frente, menos água e leite, mas, não bebi o suficiente. Um homem se perde muitas vezes na vida, e em grande parte se perde por motivos banais. Eu, sou um retrato vivo da inconseqüência humana, travei batalhas inúteis e sem nenhum propósito honesto ou que não fosse totalmente pessoal. E muitas vezes, criei essas guerras estúpidas dentro das casas onde fui filho, irmão, amigo, namorado, amante ou somente um visitante. Sabia de cor o nome de cada uma daquelas pessoas, só não sabia o quanto era importante saber seus nomes e ser chamado por elas pelo nome. Aqui onde eu moro, nesse prédio onde o silencio e a incerteza agora imperam, sou somente o cara do bloco B, e não me lembro a ultima vez em que fui chamado pelo nome ou na qual chamei alguém pelo nome. Todavia, nunca me senti um homem triste, ou depressivo, muito pelo contrario, cavei a golpes largos esse buraco cinza e solitário em que me encontro agora. E mesmo que não seja a melhor forma de um ser humano viver, é a única que se desenha a frente do homem que vive nas grandes metrópoles.
        De repente, um vulto negro e pequeno eu vi passar por entre os livros na estante, não me contive fui ver logo o que era. Uma barata! Uma horripilante e asquerosa barata. Pensei: vou matar! No entanto, não matei. Que tolice a minha, achar que poderia me dar a insensatez de matar, sim porque a essa altura, isso seria mesmo uma tremenda de uma idiotice. Éramos apenas eu e aquela barata naquela sala e quem sabe se não éramos somente os dois naquela cidade. Entretanto, eu sabia seu nome, sabia que se chamava barata, e que todos a chamavam assim. Poder chamá-la pelo nome me deu certo conforto. Permaneci ali, inerte, olhando aquele bicho nojento, que, pelo pouco movimento que fazia, parecia tranqüilo. E assim, como um homem a beira da loucura, a beira de um abismo, que de minuto em minuto se surpreendia conversando em pensamento com uma barata. Adormeci.
        Quando o relógio despertou, saltei da cama num movimento automático e lento. Fui ao banheiro, mijei, lavei o rosto, escovei os dentes e me disse qualquer coisa do tipo: “cara que noite”. Depois me vesti apressado, tomei um café requentado, tranquei a porta e peguei o elevador.

_É só o cara do bloco B, sussurrou o porteiro no ouvido de uma moça clara, de seios fartos e cabelos compridos lisos a me ver passando apressado, acenei com as mãos e com a pressa de chegar logo ao trabalho mal notei que a cidade estava novamente habitada...

Ulisses de Abreu